Colegas de filho de PMs trocam e-mail e dizem ter guardado segredo

11:32 |


Dois garotos deverão ser novamente ouvidos pela Polícia Civil nesta quarta.
Marcelo Pesseghini, de 13 anos, é o principal suspeito dos assassinatos.

Do G1 São Paulo

A Polícia Civil deve ouvir novamente nesta quarta-feira (28) dois amigos de Marcelo Pesseghini, suspeito de matar os pais, a avó e uma tia-avó na Zona Norte de São Paulo, no início deste mês. O adolescente de 13 anos se suicidou após cometer os crimes, segundo a polícia.
Investigadores do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) acreditam que esses dois colegas de Marcelo sabem mais do que contaram inicialmente. Os dois trocaram e-mails depois do primeiro depoimento. Nos textos, eles dizem ter guardado um segredo sobre o crime, como apurou o Bom Dia Brasil.
Os garotos que deverão depor nesta quarta são os que aparecem com Marcelo nas imagens de câmeras de segurança, no dia 5 de agosto, saindo do Colégio Stella Rodrigues. No primeiro depoimento dele, eles disseram à polícia que Marcelo sempre falava que mataria os pais, mas nunca deram atenção. Os dois adolescentes fariam parte de um grupo criado por Marcelo, chamado "Os Mercenários", inspirado no game Assassins Creed.
Laudos
Nesta terça-feira (27), o SPTV informou que o laudo dos peritos sobre a morte da família Pesseghini mostra que as vítimas não foram dopadas antes dos assassinatos. A polícia suspeitava que o garoto Marcelo Pesseghini, de 13 anos, tivesse dado algum remédio para o pai, a mãe, a avó e a tia-avó antes dos assassinatos, o que os exames descartaram.
Pelos exames e laudos, fica comprovado que o rapaz matou primeiro o pai, o sargento das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) Luís Marcelo Pesseghini, de 40 anos, depois a mãe, a cabo Andreia Regina Bovo Pesseghini, de 36 anos, em seguida a avó Benedita de Oliveira Bovo, de 67 anos, e por último a tia-avó Bernadete Oliveira da Silva, de 55 anos.
Os crimes foram todos cometidos por volta de 0h30 de 5 de agosto. Um tiro foi encontrado na parede do quarto da tia-avó. E a perícia constatou que Marcelo disparou o tiro porque a tia acordou depois que ouviu disparo que matou a avó. O garoto se assustou e deu dois tiros: um que matou Bernardete e outro que pegou na parede.
A polícia já ouviu mais de 40 testemunhas, entre elas colegas de escola de Marcelo que contaram que o garoto dizia querer ser matador de aluguel. Ainda segundo os amigos, o adolescente confidenciou que tinha matado os pais.
Os investigadores devem ter acesso essa semana aos documentos da quebra do sigilo telefônico da família, o que pode ajudar a polícia a determinar quem mais deve ser ouvido sobre o caso.
Quatro mortes em dez minutos
Segundo Arles Gonçalves Júnior, presidente da Comissão de Segurança Pública da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), que acompanha as investigações, Marcelo Pesseghini teria demorado cerca de dez minutos para cometer os crimes. Outras autoridades que participam da apuração confirmaram ao G1 que o assassino da família Pesseghini teria demorado cerca de dez minutos para efetuar as quatro mortes.
"As testemunhas disseram que os primeiros disparos foram ouvidos por volta de 0h20 do dia 5 e os últimos, perto da 0h30”, disse Gonçalves Júnior.
Crime em família SP 08/08 (Foto: Arte/G1)
A chacina e o suposto suicídio do assassino aconteceram nas residências onde a família Pesseghini vivia. Num dos imóveis foram encontrados os corpos do sargento da Rota, da cabo Andreia e de Marcelo Pesseghini. No outro, foram achadas Bernadete e Benedita.

“O intervalo entre os dois primeiros tiros, que mataram o pai e a mãe, seria de algo em torno de seis segundos. Depois, o menino se deslocou até a outra residência e matou a tia-avó e a avó. Essa seria a sequência: pai, mãe, tia-avó e avó”, disse Arles Gonçalves Júnior.

A arma usada foi uma pistola .40 da mãe. “Os tiros foram dados praticamente encostados, à queima-roupa. Pelas fotos que vi, a uma distância de dez centímetros, característica de execução”, disse Arles Gonçalves Júnior.

Videogame
Apesar de o DHPP ainda não ter concluído o inquérito que apura a autoria e motivação dos homicídios seguidos de suicídio, Arles Gonçalves Júnior disse que a cada dia está mais convencido que Marcelo assassinou a família e se matou por sofrer transtornos psicológicos.

“Várias coisas podem ter influenciado esse comportamento. Uma das coisas que teria influenciado Marcelo a cometer os crimes foi o game "Assassins Creed". Colegas relataram que desde abril ele vinha dizendo que mataria os familiares e fugiria para um esconderijo. Algo bem parecido com o personagem do jogo de videogame”, disse o advogado.

Um mês antes da tragédia em família, o adolescente havia mudado sua foto nas redes sociais na internet - ele colocou a imagem de um personagem de Assassins Creed na sua página pessoal do Facebook.
“Marcelo ficava de capuz o tempo inteiro, assim como o personagem. Mesmo quando os colegas pediam para ele retirar o capuz, ele insistia em colocar. Ele começou a misturar a realidade com ficção e isso não foi percebido pelos pais. O garoto, até que saibamos, nunca passou por um psicólogo ou psiquiatra na vida”, disse Gonçaves Júnior.
No dia 8 deste mês, a desenvolvedora de games Ubisoft, criadora do jogo "Assassin's Creed", divulgou nota de repúdio à ligação feita entre o jogo e o assassinato da família Pesseghini.

Colegas e PMs
Numa das imagens gravadas por câmeras de segurança perto da escola de Marcelo, o suspeito aparece de capuz caminhando ao lado de dois colegas na manhã do dia 5 de agosto, horas depois da família ter sido morta.  Esses alunos foram identificados pela investigação e foram chamados para prestar depoimentos. Eles devem falar na quarta-feira (28). O DHPP quer saber o que o estudante falou para eles após o crime.
Outros alunos do Colégio Stella Rodrigues contaram aos policiais que Marcelo confessou os crimes, mas não acreditaram por acharem que se tratava de uma brincadeira.
Entre outros motivos que estão sendo investigados para tentar saber o que poderia ter levado um garoto aparentemente normal a matar a família e se suicidar estão a doença que sofria - fibrose cística - e o uso de games violentos. A médica que cuidava de Marcelo, Neiva Damaceno, já descartou a chance de os remédios contra a fibrose terem alterado seu comportamento a ponto de levá-lo a cometer os crimes.
Marcelo tomava insulina para controlar a diabetes. A fibrose cística é uma doença genética que afeta o funcionamento de secreções do corpo, levando a problemas nos pulmões e no sistema digestivo. Ela não tem cura e pode levar à morte precoce.

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